quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Uma conversa de homens


por Lucas Junot

Perfil: Manoel Joaquim Quinquinel, 52 anos

Após cumprir minha rotina diária, volto para casa sempre pelo mesmo caminho, no qual existe uma bela construção envidraçada e de arquitetura moderna.

Por diversas vezes avistei uma figura solitária dentro daquela construção que parecia ansiar uma conversa, no entanto poderia assustá-lo, visto que era quase meia noite.

Mais um dia após cumprir minhas responsabilidades diárias retorno à minha casa, quando ouço uma voz rouca me abordar. “Boa noite!”, virei e aquela figura que tanto observei pediu-me um isqueiro emprestado, “O meu isqueiro quebrou e sabe como é né? É difícil passar a hora aqui sem fumar um cigarrinho”.

No mesmo momento lembrei que tinha dois isqueiros na minha mochila e dei um a ele; constatei que aquele senhor ficou muito agradecido, talvez não pelo objeto, mas pela atitude. Ele me ofereceu um café que disse ter acabado de fazer, foi aí que adentrei aquele local e consegui saber mais do que meus olhos haviam visto até então.

Entramos, ele me serviu o café e eu perguntei se poderia gravar uma espécie de entrevista descontraída alegando um compromisso acadêmico. Ele topou no ato. “Por mim tudo bem, é difícil achar alguém disposto a conversar essa hora”, sorriu.

Aquele senhor chama-se Manoel Joaquim Quinquinel. “Meu pai era português, pode ver pelo meu nome”, disse ele.

Fiz perguntas básicas para começar, ele disse ter 52 anos; perguntei o que ele fazia e uma expressão triste formou-se em seu rosto. As marcas no rosto e nas mãos daquele senhor eram como documentos que me permitiram constatar que sua vida não tivera sido fácil, no entanto ele transmitia uma satisfação ou conformismo, não sei dizer.

“Olha... na verdade verdadeira minha profissão mesmo é técnico em eletrônica, eu não sou daqui, sou de Lavínia – SP, cheguei aqui em 1959, num tinha nada disso aqui, ali onde é o extra era a casa de uns parente nosso e aqui onde eu trabalho hoje nós caçava passarinho; vim pra cá pra operar a vista e como ela num tava boa vim trabalhar aqui nessa bocada de guarda”.

Diante das marcas de expressão que citei acima, indaguei sobre como havia sido sua infância e juventude. “ixi... foi muito boa, eu vivi bastante, namorei muito também!” e riu orgulhoso, querendo nitidamente encerrar a conversa sobre sua juventude.

Ele me revelou que trabalha das seis da tarde às seis da manhã, depois vai para casa, onde chega aproximadamente 6h40 para dormir até às 12h e a tarde realiza trabalhos informais e esporádicos. “Minha profissão hoje é bico”, diz com um largo sorriso.

Perguntei a ele se compensava aquele trabalho, ao que ele me respondeu: “ahh pra mim que sou sozinho compensa né?!”.

Joaquim mora sozinho e tem quatro filhos e duas netas. “Os filhos já estão tudo casado, a mulher me largou, então pra mim ficar aqui sozinho... já acostumei”.

Como assim te largou? Perguntei. “25 anos de casado, ela acho que não dava mais ai separou”. A decisão foi dela? Insisti. “não nós decidimos juntos né?!”; nesse nitidamente notei que realmente ele foi deixado, visto que seu orgulho veio à tona com sua última fala e se tratando de uma conversa entre homens o velho Manoel não quis ficar por baixo.

Fiquei pensando em que planos de vida pessoas como Manoel teriam, o que ambicionavam, o que idealizavam. Ele estava bem descontraído e percebi que aquela pergunta o faria pensar e talvez ele a fizesse a si mesmo posteriormente. Realmente Joaquim fez uma longa pausa, não tentei interferir sob pena de prejudicar o raciocínio que ele formava e tive a resposta: “olha... mais tarde né? Aposentar! Ter as netinha perto né? Ixi... ... ... sonho de pobre não vai alto não filho!

Publicado originalmente em http://www.unifolha.com.br/lernoticia.aspx?id_noticia=173

Um comentário:

  1. "sonho de pobre não vai alto não filho!"

    que jornalista se preocupa em registrar esse tipo de coisa?

    acho que vou curtir seu blog hein Lucas!

    beijocas companheiro!

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