terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma aventura no transporte público de Campo Grande


Foi um investimento de R$ 2,10 que me rendeu uma grande experiência. A proposta era viver, ao menos um dia, a rotina do transporte coletivo de Campo Grande e seus passageiros mais curiosos. Surpreendi-me!

Percebi que, se quisesse entender como as coisas funcionavam ali, teria que ir onde tudo começa. Compareci no terminal General Osório e resolvi acompanhar a linha 070, uma das mais movimentadas de Campo Grande. A viagem estava para começar! O motorista e a cobradora fumavam um cigarro e olhavam para o ônibus sem trocar palavra.

O olhar do motorista era quase que um protesto e sei que minha vivência de um dia não iria fazer-me compreender a grande aventura cotidiana que ele vivia. A cobradora carregava um broche de uma santinha da qual parecia gostar muito. Enquanto ainda estava em terra firme olhava e acariciava aquele objeto, talvez imaginando como seria o seu dia.

Mas já era hora de partir. Adentrei o ônibus por volta das 6h30 e acompanhei o itinerário até às 8h30. As pessoas invadiam o veículo como se suas vidas dependessem daquilo e procuravam sedentas por lugares vagos a fim de se acomodar. A euforia durara pouco e logo o carro gigante começou a andar.

Nesse momento as pessoas abaixaram suas cabeças e demonstraram um grande vazio. Porém, havia uma senhora de aparentes 70 anos de idade que entoava uma música de uma bonita melodia e parecia estar se divertindo à beça. Apesar de ainda ser cedo, o sol já castigava as pessoas dentro da caixa ambulante. O local era apertado, quente e as pessoas sentadas pareciam ver em suas poltronas uma extensão tosca de sua confortável cama. De modo que se deixavam levar, como um bebê embalado nos braços de sua mãe, por aquele balanço insistente.

Os que estavam de pé tinham uma expressão séria e o desconforto era notório através das gotas de suor que escorriam em seus rostos. Observei muito as fisionomias e espantei-me com a variedade delas. Elas possibilitavam quase que uma leitura do pensamento de seus donos.

Olhei no relógio, eram 7h45. O vermelhão, como muitos chamavam, parou para apanhar mais gente apesar de não haver mais espaço nem para uma mosca! Foi então que o silêncio foi quebrado por um barulho ensurdecedor! Aquela música melódica que a senhora cantava já não se ouvia mais.

Repentinamente, pequenos seres foram adentrando o grande veículo e tratando de conquistar seu espaço. Eram pequenos, mas empurravam como gente grande, tamanha a habilidade que tinham e propriedade no conhecimento da situação.

Os pequeninos falavam demasiadamente alto e sobre os mais variados assuntos. Então, percebi que tinha que apurar meus ouvidos para compreender o universo deles, até que ouvi um garotinho moreno dizer ao seu colega: “Rodrigo! Sabe a Ana Clara da 3ª? Ela agora é minha namorada!”. O amigo Rodrigo respondeu-lhe dizendo que se ele quisesse também a namorava, mas não gostava dela. Fiquei pensando no conceito que os pequenos tinham do assunto e lembrei-me com saudade de como era boa aquela idade.

O ônibus fez uma curva bem acentuada e involuntariamente houve um forçado remanejamento de lugares e fui parar do outro lado do veículo, quase no colo de uma senhora que estava pendurada nos ferros acima de sua cabeça. Chamou-me a atenção uma pequena criatura que estava sentada em uma espécie de degrau no chão do grande liquidificador. Resolvi, com muito custo, me aproximar e vi um garoto ruivo, com não mais que oito anos, empunhando um livro. Lutei um pouco mais e cheguei mais perto para ver o que ele lia. Quase perdi os sentidos ao perceber que se tratava de um livro de poesias. No entanto, não eram poemas inocentes de criança. Tentei acompanhar ao menos um verso e constatei que falavam de amor, dor e solidão.

Fiquei imaginando como aquilo surtia efeito na mente daquele pequeno garoto ruivo, de comportamento diferente dos demais e, confesso, invejei não ter despertado tão cedo quanto ele.

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