sábado, 26 de setembro de 2009

Cidade Morena



Por Lucas Junot

Aos dois dias do mês de outubro, precisamente às 7h45, no ano de 1987, eu conheci uma morena. Grande, promissora e hospitaleira. Não sei precisar quantas pessoas ela abrigava naquela época; arrisco apenas dizer que hoje a realidade é ainda mais abrangente, são quase um milhão de pessoas que se aconchegam por aqui.

Campo Grande é o nome dela. Um município situado na região Centro Oeste do Brasil, eqüidistante dos extremos leste-oeste e norte-sul do estado de Mato Grosso do Sul, motivo pelo qual o município é uma grande encruzilhada que desenvolve uma vasta região.

Há mais de 100 anos colonizadores mineiros encantaram-se com campos de pastagens e águas cristalinas, típicos desta região do Cerrado. A cor desta terra - roxa ou vermelha - deu à cidade o carinhoso 'título' de cidade morena.

Campo Grande é um importante centro de atividade econômica e social do estado, considerado como o de maior expressão e influência cultural, sendo também o pólo mais importante de toda a região do antigo estado de Mato Grosso, desmembrado em 1977.

Na década de 1950, o município concentrava 16,3% das empresas comerciais de Mato Grosso do Sul; em 1980, este número subiu para 24,3% e, em 1997, a 34,85%.

Hoje, a morena centenária possui dimensões de uma metrópole. A peculiaridade das cidades do interior ainda é vista por aqui, no entanto com ressalvas. Apenas no primeiro semestre deste ano, foram registrados 4180 acidentes pelo Departamento de Trânsito, na capital de Mato Grosso do Sul, 4% a mais do que o mesmo período do ano passado.

Segundo pesquisa feita em 2006 pela revista Exame, Campo Grande é a 28ª melhor cidade do Brasil em infra-estrutura, fator decisivo na atração de investimentos aumento da população e conseqüentemente os agravante desse crescimento.

Algodão de Bolinha

Recebi este texto de um amigo e resolvi publicá-lo porque ilustra muito bem a experiência de quem, assim como eu, torna-se pai de primeira viagem. Espero que gostem. Leiam com carinho!

Neste breve período em que me tornei pai – há 40 dias –, aprendi que existe algodão de bolinha para vender. Mais: algodão de bolinha em saquinhos plásticos.

Aprendi que não precisa esperar sua filha crescer para começar a conversar com ela. E que não se deve ter medo de segurar a criança no colo, afinal não quebra. Cristais quebram. Aço quebra. Uma criança nos braços dos pais não quebra. Aprendi que não é necessário chamar a vovozinha, a sogra, a vizinha ou Jesus Cristo para dar o primeiro banho na sua filha. Nem o segundo, o terceiro, o quinto e até o quadragésimo. Você mesmo vai saber fazer isso melhor acontecimento do dia. Com todo o cuidado, que é para não cair sabão nos olhos dela. E, creia-me: não cai.

Aprendi também que se você não estiver preparado para chorar muito, quase feito um bebê tão recém-nascido quanto sua filha, não coloque para tocar o “Concerto para Piano em Fá Menor” de Johann Sebastian Bach quando ela fizer cinco dias de vida. Não faça isso.

Aprendi que uma dor qualquer na sua filha dói à décima potência em você. Que você sufoca se ela não respirar direito. Que seu estômago ferve quando ela tem cólica. Aprendi que um dia com uma criança que acabou de nascer tira mais a sua energia que se você passasse esse mesmo tempo carregando pedras nas costas para o alto de um morro. Mas aprendi também que um minuto desse mesmo dia olhando para a sua filha lhe dá mais energia que ficar de férias um ano na praia ou pescando siri-patola de papo para o ar.

E que esse negócio de “nunca vou trocar uma fralda na vida” só serve para quem nunca teve filho. Você troca cantando. E que a mãe reúne mais forças e coragem que um batalhão inteiro marchando incentivado para a guerra.

Aprendi que o sono nunca mais será o mesmo. Que a vida não será mais a mesma. Que as perspectivas não serão mais as mesmas. E que o mundo não será mais o mesmo. O tempo não é mais seu: você almoça quando ela deixa, dorme quando ela permite, sai quando ela adormece e volta o mais rápido possível antes que ela acorde.

Aprendi que a gente é muito mais instinto que inteligência e que a inteligência não tem nada, absolutamente nada, com o instinto. Que não sou tão forte quanto imaginava e muito menos tão frágil quanto cheguei a pensar um dia. E que não existe modelo de pai, por melhor pai que você tenha tido, ou ainda tem a sorte de ter. E que aprender a ser pai é como aprender a andar de bicicleta: você tem de assumir todos os riscos – de cair, esfolar os cotovelos ou até perder um dente de leite. No final valerá a pena ter superado o medo. Ter pedalado, cambaleado para encontrar o equilíbrio.

Percebi que, por mais que você tenha vivido, viajado, rido, escutado, aprendido, enfim, por mais que você tenha realizado um monte de coisas, você fica com a impressão de que nunca fez algo que chegasse aos pés minúsculos da sua filha.

Aprendi que não importa o que ela vai ser quando crescer: mergulhadora em Fernando de Noronha, fotógrafa na Bósnia, cientista, advogada, médica ou jogadora de futebol. Só importa que seja feliz e se realize naquilo que faz.

E o mais importante: aprendo que não sei absolutamente nada sobre isso. Nada. Que o futuro não se mede mais no calendário, mas nos segundos que você supera a cada momento que esse milagre vai passando de graça diante dos teus olhos.

*Texto de Paulo Renato Coelho Netto, jornalista, pós-graduado em Marketing e acadêmico de Direito. É autor, entre outros, do livro “Mato Grosso do Sul”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Uma conversa de homens


por Lucas Junot

Perfil: Manoel Joaquim Quinquinel, 52 anos

Após cumprir minha rotina diária, volto para casa sempre pelo mesmo caminho, no qual existe uma bela construção envidraçada e de arquitetura moderna.

Por diversas vezes avistei uma figura solitária dentro daquela construção que parecia ansiar uma conversa, no entanto poderia assustá-lo, visto que era quase meia noite.

Mais um dia após cumprir minhas responsabilidades diárias retorno à minha casa, quando ouço uma voz rouca me abordar. “Boa noite!”, virei e aquela figura que tanto observei pediu-me um isqueiro emprestado, “O meu isqueiro quebrou e sabe como é né? É difícil passar a hora aqui sem fumar um cigarrinho”.

No mesmo momento lembrei que tinha dois isqueiros na minha mochila e dei um a ele; constatei que aquele senhor ficou muito agradecido, talvez não pelo objeto, mas pela atitude. Ele me ofereceu um café que disse ter acabado de fazer, foi aí que adentrei aquele local e consegui saber mais do que meus olhos haviam visto até então.

Entramos, ele me serviu o café e eu perguntei se poderia gravar uma espécie de entrevista descontraída alegando um compromisso acadêmico. Ele topou no ato. “Por mim tudo bem, é difícil achar alguém disposto a conversar essa hora”, sorriu.

Aquele senhor chama-se Manoel Joaquim Quinquinel. “Meu pai era português, pode ver pelo meu nome”, disse ele.

Fiz perguntas básicas para começar, ele disse ter 52 anos; perguntei o que ele fazia e uma expressão triste formou-se em seu rosto. As marcas no rosto e nas mãos daquele senhor eram como documentos que me permitiram constatar que sua vida não tivera sido fácil, no entanto ele transmitia uma satisfação ou conformismo, não sei dizer.

“Olha... na verdade verdadeira minha profissão mesmo é técnico em eletrônica, eu não sou daqui, sou de Lavínia – SP, cheguei aqui em 1959, num tinha nada disso aqui, ali onde é o extra era a casa de uns parente nosso e aqui onde eu trabalho hoje nós caçava passarinho; vim pra cá pra operar a vista e como ela num tava boa vim trabalhar aqui nessa bocada de guarda”.

Diante das marcas de expressão que citei acima, indaguei sobre como havia sido sua infância e juventude. “ixi... foi muito boa, eu vivi bastante, namorei muito também!” e riu orgulhoso, querendo nitidamente encerrar a conversa sobre sua juventude.

Ele me revelou que trabalha das seis da tarde às seis da manhã, depois vai para casa, onde chega aproximadamente 6h40 para dormir até às 12h e a tarde realiza trabalhos informais e esporádicos. “Minha profissão hoje é bico”, diz com um largo sorriso.

Perguntei a ele se compensava aquele trabalho, ao que ele me respondeu: “ahh pra mim que sou sozinho compensa né?!”.

Joaquim mora sozinho e tem quatro filhos e duas netas. “Os filhos já estão tudo casado, a mulher me largou, então pra mim ficar aqui sozinho... já acostumei”.

Como assim te largou? Perguntei. “25 anos de casado, ela acho que não dava mais ai separou”. A decisão foi dela? Insisti. “não nós decidimos juntos né?!”; nesse nitidamente notei que realmente ele foi deixado, visto que seu orgulho veio à tona com sua última fala e se tratando de uma conversa entre homens o velho Manoel não quis ficar por baixo.

Fiquei pensando em que planos de vida pessoas como Manoel teriam, o que ambicionavam, o que idealizavam. Ele estava bem descontraído e percebi que aquela pergunta o faria pensar e talvez ele a fizesse a si mesmo posteriormente. Realmente Joaquim fez uma longa pausa, não tentei interferir sob pena de prejudicar o raciocínio que ele formava e tive a resposta: “olha... mais tarde né? Aposentar! Ter as netinha perto né? Ixi... ... ... sonho de pobre não vai alto não filho!

Publicado originalmente em http://www.unifolha.com.br/lernoticia.aspx?id_noticia=173

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma aventura no transporte público de Campo Grande


Foi um investimento de R$ 2,10 que me rendeu uma grande experiência. A proposta era viver, ao menos um dia, a rotina do transporte coletivo de Campo Grande e seus passageiros mais curiosos. Surpreendi-me!

Percebi que, se quisesse entender como as coisas funcionavam ali, teria que ir onde tudo começa. Compareci no terminal General Osório e resolvi acompanhar a linha 070, uma das mais movimentadas de Campo Grande. A viagem estava para começar! O motorista e a cobradora fumavam um cigarro e olhavam para o ônibus sem trocar palavra.

O olhar do motorista era quase que um protesto e sei que minha vivência de um dia não iria fazer-me compreender a grande aventura cotidiana que ele vivia. A cobradora carregava um broche de uma santinha da qual parecia gostar muito. Enquanto ainda estava em terra firme olhava e acariciava aquele objeto, talvez imaginando como seria o seu dia.

Mas já era hora de partir. Adentrei o ônibus por volta das 6h30 e acompanhei o itinerário até às 8h30. As pessoas invadiam o veículo como se suas vidas dependessem daquilo e procuravam sedentas por lugares vagos a fim de se acomodar. A euforia durara pouco e logo o carro gigante começou a andar.

Nesse momento as pessoas abaixaram suas cabeças e demonstraram um grande vazio. Porém, havia uma senhora de aparentes 70 anos de idade que entoava uma música de uma bonita melodia e parecia estar se divertindo à beça. Apesar de ainda ser cedo, o sol já castigava as pessoas dentro da caixa ambulante. O local era apertado, quente e as pessoas sentadas pareciam ver em suas poltronas uma extensão tosca de sua confortável cama. De modo que se deixavam levar, como um bebê embalado nos braços de sua mãe, por aquele balanço insistente.

Os que estavam de pé tinham uma expressão séria e o desconforto era notório através das gotas de suor que escorriam em seus rostos. Observei muito as fisionomias e espantei-me com a variedade delas. Elas possibilitavam quase que uma leitura do pensamento de seus donos.

Olhei no relógio, eram 7h45. O vermelhão, como muitos chamavam, parou para apanhar mais gente apesar de não haver mais espaço nem para uma mosca! Foi então que o silêncio foi quebrado por um barulho ensurdecedor! Aquela música melódica que a senhora cantava já não se ouvia mais.

Repentinamente, pequenos seres foram adentrando o grande veículo e tratando de conquistar seu espaço. Eram pequenos, mas empurravam como gente grande, tamanha a habilidade que tinham e propriedade no conhecimento da situação.

Os pequeninos falavam demasiadamente alto e sobre os mais variados assuntos. Então, percebi que tinha que apurar meus ouvidos para compreender o universo deles, até que ouvi um garotinho moreno dizer ao seu colega: “Rodrigo! Sabe a Ana Clara da 3ª? Ela agora é minha namorada!”. O amigo Rodrigo respondeu-lhe dizendo que se ele quisesse também a namorava, mas não gostava dela. Fiquei pensando no conceito que os pequenos tinham do assunto e lembrei-me com saudade de como era boa aquela idade.

O ônibus fez uma curva bem acentuada e involuntariamente houve um forçado remanejamento de lugares e fui parar do outro lado do veículo, quase no colo de uma senhora que estava pendurada nos ferros acima de sua cabeça. Chamou-me a atenção uma pequena criatura que estava sentada em uma espécie de degrau no chão do grande liquidificador. Resolvi, com muito custo, me aproximar e vi um garoto ruivo, com não mais que oito anos, empunhando um livro. Lutei um pouco mais e cheguei mais perto para ver o que ele lia. Quase perdi os sentidos ao perceber que se tratava de um livro de poesias. No entanto, não eram poemas inocentes de criança. Tentei acompanhar ao menos um verso e constatei que falavam de amor, dor e solidão.

Fiquei imaginando como aquilo surtia efeito na mente daquele pequeno garoto ruivo, de comportamento diferente dos demais e, confesso, invejei não ter despertado tão cedo quanto ele.

Entre fumaça, perfume e algo mais no ar















Apesar de fazer parte do Candomblé há 10 anos, quando Vicenzzo sugeriu que fizéssemos o trabalho acerca da minha religião, desconsiderei a hipótese no mesmo instante, visto que correria o risco de deixar minha imensa paixão pelo Candomblé interferir em nosso texto. No entanto me ocorreu uma boa idéia. Seria interessante para mim, enquanto religioso, constatar a opinião de alguém leigo, além de eu mesmo me desprender dos meus valores para friamente analisar o que se passa em uma casa de Candomblé.

Sob a ótica de uma pessoa leiga, com certeza Vicenzzo ligou o lugar que viu ao local onde se passam as “missas” da igreja católica, só que na religião do Candomblé. Seria uma visão preconceituosa chamar o ilè ( palavra do dialeto Yorubá que significa casa) de Terreiro ou centro de macumba, como tanto ouvira?

Quando conversamos depois ele me disse ter se libertado da visão preconceituosa sobre essa religião tão pouco conhecida por ele anteriormente.

Ao entrar no ilè, também conhecido como barracão - referindo-se ao grande salão onde se passam as festividades – Vicenzzo se deparou com pessoas alegres, notóriamente felizes, bonitas que dançavam em círculo fazendo gestos que faziam analogia as passagens dos mitos que contam a história dos Orixás. Disse ter sentido uma atmosfera totalmente diferente do que havia sentido antes, quando freqüentava a igreja católica. “O que senti me arrepiou até os pêlos da nuca.

Naquela atmosfera, o ar estava mais leve e eu me sentia bem e à vontade”, disse ele, indagando-se. “Seria por causa do aroma das flores que compunham a decoração, pelas plantas presentes em toda extensão do local ou pelo cheiro de um incenso - que eles chamavam de 'defumação' - que crepitava por toda parte? Ou pelos diversos perfumes misturados naquele extenso salão?”

“O ambiente tão estereotipado por ‘centro de macumba’, se tornou um lugar agradável e acompanhado por um perito no assunto, meu companheiro de trabalho e amigo, lá chamado de Babalasé Lucas de Odé, um Sacerdote da religião, depois pude compreender a lógica dos rituais que havia visto”. Relatou Vicenzzo.

“Ao começar a música, o batuque dos atabaques, começa a cerimônia de fato. Uma sensação de remorso toma conta de mim, tudo que eu anteriormente pensava, era uma visão preconceituosa e que grande parte da população tem de forma errônea”.

“Segundo o Lucas me informou posteriormente, no Candomblé são cultuados os Orixás, que são Deuses que regem as forças da natureza, como Oyá Deusa Do fogo e dos ventos, Ogum Deus do ferro e das estradas , Oxum Deusa da água doce e da fertilidade, entre outros.

"De agora em diante, toda vez que eu ouvir algum tipo de comentário preconceituoso, irei me expressar de forma contrária, pois agora realmente sei do que estou falando".

"Os meus pensamentos quando eu entrei no Ilè Dará Agán Oyá Asé Elegbara Omodè - nome daquele templo - foram de total reflexão e ao assistir a cerimônia, com pessoas dançando alegres, felizes, onde pude presenciar que estavam como eu em total bem-estar, além de outras em estado de transe, incorporadas com os Orixás, com roupas lindas e insígnias que faziam referência ao universo que representavam”.

“Foi um choque completamente positivo na minha cabeça, uma experiência única e enriquecedora".

Analisando a reação do Vicenzzo, pude constatar como religioso, estudioso do Candomblé e, evidentemente, acadêmico e ser humano, que a sociedade como um todo e - com destaque para o âmbito jornalístico - 'emburrecem' ( se cabe aqui um neologismo) com seus pré-julgamentos a 'egbé' (sociedade em Yorubá) e inibem uma formação de conceitos independente de valores pré-estabelecidos pelos alienados.

Lucas Junot e Vicenzzo Vicchiatti